terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

QUE BALANÇOU, BALANÇOU

Terremoto no Acre ou apenas o prédio da Defensoria Pública do Estado que balançou e teve que ser evacuado?

Departamento técnico do Corpo de Bombeiros ainda avalia as condições do prédio, no bairro do Bosque.

O prédio foi evacuado pelo Corpo de Bombeiros após registro de um tremor no último andar, na sala da defensora geral, onde a mesa se deslocou e quadros na parede balançaram.

O Corpo de Bombeiros não identificou rachadura e informou que não há registro de terremoto que tenha atingido o Acre.

O pessoal da Defensoria Pública reclama das condições de trabalho, como falta de material e até água no prédio.

A Secretaria de Comunicação do governo do Acre decidiu silenciar sobre o assunto.

FLAUTIM-RUFO

Vídeo inédito mostra ave recém-descoberta no Brasil


O Blog da Amazônia é o primeiro veículo a registrar em vídeo e fotos, no Parque Zoobotânico da Universidade Federal do Acre, em Rio Branco, a captura de um flautim-rufo (Cnipodectes superrufus).

Descrita pela ciência há dois anos, no Brasil a espécie foi encontrada até agora apenas no Acre, onde o ornitólogo Edson Guilherme faz anilhamento dela há mais de 10 anos.

Munida de equipamentos sofisticados, uma equipe norte-americana fracassou recentemente no Acre na tentativa de documentar com exclusividade a captura do flautim-rufo.

Além do Acre, o flautim-rufo é encontrado nas regiões de Puerto Maldonado, no Peru, e de Pando, na Bolívia.

No Brasil, existem apenas três espécimes coletados e taxidermizados, oriundos do Acre, que estão depositados no Museu Emílio Goeldi, em Belém (PA).

Os demais espécimes, capturados em território peruano, estão guardados em museus da Louisiana (EUA) e de Lima (Peru).

Leia mais no Blog da Amazônia.

EVITE DESPESAS NA FLORESTA DIGITAL

Dicas caseiras de antena wireless com lata da Pringles


Tutoriais estão disponíveis aqui e aqui.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

HELIBRAS E GOVERNO DO ACRE

Revista Veja publicou cartas da Helibras e da Secretaria de Comunicação do Governo o Acre

"A respeito da nota "Uma fase acre para o PT" (Holofote, 3 de fevereiro), temos esclarecimentos da Helibras referentes ao inquérito conduzido pela Procuradoria da República no estado do Acre sobre o contrato de compra de helicóptero celebrado entre a empresa e o governo do estado do Acre em 2009:

1) a Helibras prestou todas as informações solicitadas sobre o contrato de compra e venda do helicóptero Esquilo AS 350 celebrado entre a empresa e o governo do estado do Acre;

2) a empresa esclareceu, através de ofício, que a variação dos valores dos contratos ocorre em função das diferentes necessidades de cada órgão público, e que cada processo licitatório encerra um objeto de contratação que envolve a plataforma da aeronave mais componentes específicos para o tipo de operação, mais serviços que sejam requeridos, mais eventual treinamento, cujo custo depende do local onde será realizado, do total de pilotos e mecânicos a ser treinados etc.;

3) essas diferentes necessidades requeridas na licitação, bem como o ano de aquisição das aeronaves, a lista de preços vigente e as condições financeiras das licitações, resultam em diferentes valores contratuais;

4) outro fator que deve ser considerado é o fato de que, nos contratos efetuados em moeda nacional, há a influência da variação cambial;

5) nas informações encaminhadas pela Helibras ao procurador, os equipamentos e acessórios referentes a cada contrato foram detalhados, demonstrando que cada aeronave licitada tinha uma configuração específica, e, desse modo, os diferentes valores contratuais corresponderam a essa diversidade;

6) todas as licitações de que a Helibras participou são públicas. Os detalhes sobre as fases contratuais de concorrência ou pregão são de conhecimento público.

Patrícia Diguê
Assessoria de imprensa da Helibras
Convergência Comunicação Estratégica Ltda.
Por e-mail"


"A compra de um helicóptero Esquilo AS 350 feita pelo governo do Acre junto à Helibras se deu como resultado de uma licitação em que concorreram as empresas TAM e Helibras, que venceu pelo critério de menor preço e cumpriu o contrato de entrega do aparelho, além de um pacote de treinamento de pilotos e mecânico, assistência técnica e seguro. Todas as informações e documentos alusivos à licitação foram disponibilizados para o Ministério Público Federal. O contrato para a aquisição do helicóptero ocorreu de forma lícita e transparente. Entendemos que o MPF tem todo o direito de investigá-lo para que a União não venha a ser responsabilizada por atos abusivos de autoridades que a representam. O ex-governador Jorge Viana, que responde pela presidência do conselho administrativo da Helibras, e não pelo seu departamento de vendas, não teve participação no processo que resultou na compra do helicóptero.

Aníbal Diniz

Secretário de Comunicação do governo do Acre
Por e-mail"

CARNAVAL DIGITAL

Governo do Acre até agora apenas replica na mídia a sua tosca marchinha "Viva o Carnaval na Floresta Digital".

Nada de internet grátis. O que existe são pontos precaríssimo de acesso wi-fi em Rio Branco, que já funcionavam em prédio públicos.

Para ter acesso gratuito à internet banda larga prometida pelo governo do Acre, a população terá que comprar antenas.

Porém, ainda não está funcionando nenhuma das 32 estações de rádio-base da capital, para as quais serão apontadas as antenas dos usuários.

Apenas o estudo técnico do Floresta Digital custou US$ 573,8 mil. E o governo investiu mais de R$ 30 milhões no programa.

Apesar de tanto investimento, esqueceram que governo estaria virando provedor. Não existe até agora sequer fone ou central de atendimento.

Existe previsão de que as 32 estações de rádio-base de Rio Branco comecem a operar a partir de amanhã. É a nova promessa.

O mais bizarro é que a população está sendo convidada a comparecer ao carnaval com notebook.

Recentemente, o juiz Manoel Pedroga (leia) ficou sem notebook ao acessar o wi-fi da Biblioteca Pública, quando foi assaltado no centro de Rio Branco.

É animado o carnaval que o governo do Acre faz com um programa literalmente virtual.

Perfil no Twitter do juiz Manoel Pedroga, vítima de assalto em junho, ao usar notebook no centro de Rio Branco: @maannooeell

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O DIA EM QUE A GENY ME SALVOU

POR JOSÉ BESSA FREIRE

Quando cheguei, às duas da tarde, ela já estava lá, esperando. Não me conhecia e me olhou, obliquamente, me estudando como se eu fosse um fungo bolorento: quem é esse cara? Não havia viva alma no auditório da Biblioteca Pública, na Rua Barroso, em Manaus, naquele 19 de abril de 1978. Nós dois éramos os palestrantes num evento sem público sobre o Dia do Índio, organizado pelo artista plástico Álvaro Páscoa, da Fundação Cultural do Amazonas. Foi ele quem nos apresentou.

Geny Brelaz de Castro, formada pela Universidade Federal de Pernambuco em Farmácia e Bioquímica, em 1970, é a primeira índia diplomada do Brasil. Estuda fungos, comestíveis uns, venenosos outros, mas também pesquisa parasitas agressores -alguns mortais- que infectam gente, animais e plantas, e apodrecem as árvores. O outro palestrante -esse locutor que vos fala- era, então, professor da Universidade Federal do Amazonas, com uma tese inconclusa de doutorado em Paris sobre história indígena.

- Cadê o público? Quem é que vai sair de casa com esse calor infernal para ouvir falar de índio, numa hora dessas, depois de almoçar jaraqui frito com baião-de-dois? - indaguei apreensivo.

Álvaro Páscoa deu uma baforada no cachimbo e nos tranqüilizou. Já estava tudo agendado com o professor de Educação Moral e Cívica da Escola Técnica Federal, chamado Cauby, um pomposo nome de origem tupi. No horário de sua aula, ele traria os alunos de várias turmas, com controle da lista de presença.

Efetivamente, arrastados compulsoriamente, os alunos lotaram o auditório. Cauby, um sargentão, fechou as portas para ninguém fugir. Não era preciso. Geny falou primeiro e deu um show. Quem a conhece sabe do que estou falando. Ela tem tal domínio de palco e de microfone que bota no chinelo a Hebe Camargo. Cativou os meninos. Falou nas toxinas presentes na farinha que eles haviam acabado de comer, nos hábitos alimentares, nas bebidas indígenas, nas plantas medicinais. Contou histórias. Enfim, lavou a égua.

Especialista em micologia, Geny, que é da nação Munduruku, incorporou a ciência oral milenar do seu povo ao saber escrito aprendido na universidade. Ela sabe tudo sobre fungos. Pesquisou a farmacopéia indígena, os fungos na preparação do tarubá -uma bebida indígena- e os microorganismos em farinhas da Amazônia. Já era naquela época uma pesquisadora respeitada com participação em congressos e artigos publicados no Brasil e no exterior. Foi aplaudidíssima pelo auditório.

Falar depois dela era um desafio. Tentei dar meu recado. Apoiado em documentos, descrevi o desaparecimento de muitos saberes, devido ao massacre das nações indígenas, uma das maiores catástrofes demográficas da história da humanidade. Fui aplaudido ruidosamente. No debate, o professor Cauby quis se exibir para os alunos. Discordou do termo “nação indígena”, que eu havia empregado, considerando-o inapropriado e perigoso.

- Só um traidor da Pátria chama índio de nação - aloprou.

Sua intervenção, aplaudida com assobios e gritos de apoio, me intimidou. Esclareci: quem chamou os índios de “nações” foi o português, não era invenção minha, estava na documentação da época. O termo “nação”tinha, inclusive, significado mais amplo, pois era também usado como coletivo. Recitei versinho cantado pelas crianças lusas:

- Aranha aranhão, sapo sapão, bichos de toda nação.

Fui saudado por uma onda de aplausos. Ai entendi que qualquer discurso seria aplaudido. Foi o que aconteceu no duelo que se seguiu.

Cauby:

- Não existem nações indígenas. Somos todos brasileiros. Quem fala em nações indígenas quer dividir o Brasil, que é uma só nação, uma única pátria - disse Cauby. (Clap, clap)

Eu:

- Conversa fiada. Nação é uma coisa, estado é outra. Comete erro primário quem confunde conceitos tão diferentes. Um estado pode abrigar muitas nações. (Clap, clap).

Cauby:

- Exatamente, é o caso da União Soviética. Só os comunistas pensam assim, porque querem minar os alicerces da Pátria. (Clap, clap).

Eu:

- Tolice. A Suíça é um estado plurinacional. Lá, tem mais nações do que buracos em queijo suíço. A existência de tantas nações não dividiu o estado suíço, não anulou sua natureza capitalista. Ao contrário, fortaleceu. (Clap, clap).

No final de cada intervenção, uma onda de aplausos para o orador da vez. Quem falasse por último, ganhava. A Geny só ali, na moita, calada, observando tudo. Foi aí que Cauby, que havia feito o curso da Escola Superior de Guerra, engrossou o pirão e disparou o tiro de misericórdia, com um - digamos assim - argumento triunfante:

- Hoje, não é só Dia do Índio. É também Dia do Exército Brasileiro e da vitória na primeira Batalha de Guararapes. Você não homenageou o Exército. Você é comunista.

Fiquei gelado. Hoje, parece bobagem, mas naquele contexto era uma denúncia grave. Afinal, um ano antes, de volta do exílio, foi essa acusação que me levou a passar três semanas preso, em Manaus, quando fui encapuzado e maltratado. (Anexo 01) Estávamos em plena ditadura militar, com um governador biônico, Enoch Reis, nomeado pelo general Geisel, que por sua vez também não havia sido escolhido pelo voto popular.

Os jovens de hoje, em sua maioria, não têm a menor idéia do horror que foi a ditadura. Não havia liberdade de expressão e de associação. O povo não podia votar em presidente, governador, prefeito. A censura impedia que as idéias circulassem nos jornais, no teatro, na música, no cinema, nos livros, na sala de aula. Professores, estudantes, jornalistas, artistas, músicos, cineastas e sindicalistas eram presos não pelo que fizeram, mas pelo que disseram ou pensavam e até pelo que achavam que você tinha a intenção de pensar.

Em todas as universidades, havia uma Assessoria Especial de Segurança e Informação (AESI), com delatores pagos com bons salários para dedurar quem expressasse opinião contra a ditadura. Na Universidade do Amazonas, seu chefe era José Melo de Oliveira. Tenho em mãos cópia de dois ofícios circulares assinados por Melo, em 1974, e enviados a todas as faculdades e institutos. Um deles pedia os nomes das pessoas que pretendiam organizar “uma exposição de livros soviéticos”, o outro exigia controle sobre a formatura de alunos e até sobre o discurso do orador da turma.

Depois disso, ele fez carreira na administração publica, foi Secretário de Educação do governador Amazonino Mendes, e ficou conhecido como José Melo Merenda, por causa do desvio de recursos da merenda escolar. Atualmente, é Secretário de Estado do Governo Eduardo Braga (PMDB, vixe, vixe!). (Anexo 02).

Não podemos esquecer, também, que em Manaus, no período de 1975 a 1979, funcionou um centro de formação, que recrutava e treinava agentes especializados em espionagem, infiltração, repressão política e torturas, financiado pela Operação Condor, conforme comprovam documentos encontrados nos arquivos da polícia política paraguaia, abertos ao público pela Justiça de lá (O Globo, domingo, 7/05/2000, pg. 48)

Há quem, hoje, defenda a ditadura militar. Depois de dois artigos contra a tortura publicados aqui nesse espaço, recebi cartas de alguns leitores com um argumento bizarro: a ditadura foi necessária, porque se os comunistas vencessem, eles aboliriam a liberdade de expressão, suprimiriam as eleições, prenderiam seus opositores, torturariam, etc. Ou seja, para impedir a implantação de um hipotético regime totalitário se fez tudo aquilo que supostamente o inimigo faria: prisão, tortura, censura, etc.

Ih, meu espaço está terminando! E a Geny, como foi que ela me salvou? Ah, a Geny foi genial, leitor (a)! Quando o sargentão me emudeceu com aquela acusação, Geny pegou o microfone, piscou um olho discretamente pra mim e fez uma defesa tão delirante quanto à peça de acusação, dando um xeque mate no Cauby:

- Se o palestrante é comunista, então eu também sou comunista e o Comando Militar da Amazônia (CMA) está cheio de comunistas, porque tudo que ele disse aqui, eu ouvi foi da própria boca dos generais, lá dentro do quartel (clap, clap, clap, claps).

Cauby ficou bestificado. Geny tinha autoridade pra falar. Ela havia acabado de receber uma medalha do CMA, por ter descoberto algum fungo lá aquartelado. Depois disso, fez concurso para professora da UFAM, onde foi Chefe do Laboratório de Patologia, ganhou muitas medalhas, inclusive a do Mérito Universitário, foi convidada a palestrar na Índia, na Argentina, na Europa, França e Bahia, se aposentou, mas continua ativa, pesquisando, é feliz e vive para sempre no meu coração: a solidária e generosa Geny.

O professor José Ribamar Bessa Freire coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti .

CARNAVAL NA FLORESTA DIGITAL

sábado, 6 de fevereiro de 2010

HISTÓRIA CONHECIDA


A campanha mais sórdida da imprensa do Acre contra um político do Estado envolveu a senadora Marina Silva (PV) e foi patrocinada com muita verba pública pelo então governador Orleir Cameli.

O jornal A Gazeta, no qual figuram como sócios Sílvio Martinello e familiares do ex-governador Flaviano Melo, foi o mais destacado nos ataques contra a senadora.

Por causa de embargo promovido pelo Ministério Público Federal nas obras da BR-364, a campanha culminou com a ocupação da pista do aeroporto de Cruzeiro do Sul por carros e máquinas pesadas para impedir o pouso de um avião com a senadora.

Quem diria que um dia Sílvio Martinello, diretor de A Gazeta, fosse parecer preocupado com o desempenho e a imagem de Marina Silva. Pois é o que se lê na coluna dele na edição de hoje:

"Esperava-se mais do programa do PV no rádio e tevê, na quinta à noite, todo à disposição da senadora Marina Silva.

Talvez, porque aqui já se conheça bem a história da senadora e seu ideário político.

Mas, pelo menos, neste programa, ao contrário de outros, Marina apareceu mais afável, sorridente; menos 'heloísa helena'."

Lembro de uma declaração recente de Marina Silva, no Acre:

- Eu vou continuar seguindo o som das gargalhadas. Não vou alterar o teste, mas quero passar no teste porque entrar para a história é não esquecer a memória.

OS ESPAÇOS DA VIAGEM

José Augusto Fontes

Estivemos novamente em Fortaleza-Ce, paixão de muitos acreanos. Nós nos identificamos com o jeito do povo alegre e simples daqui. Admiramos a beleza da cidade e somos bem acolhidos por ela, que clareia nossas idéias, lava nossos corpos e rejuvenesce nossos espíritos, com seu jeito de metrópole aconchegante. Gente do mundo todo vem para Fortaleza e cria laços de proximidade. A cidade passa a incluir moradores das mais diversas partes do mundo, como o norueguês Fred, que conheci no restaurante Tocantins, um ambiente da velha guarda da boemia, com músicas de seresta e boa comida, durante a madrugada. Ele me disse, em espanhol, ser maravilhado com Fortaleza, que para ele é o paraíso. Informou que neste janeiro, lá na cidade dele, a temperatura esteve em 40° C negativos. Já morou em Málaga, mas prefere o jeito acolhedor do Ceará; gosta do Meireles, do sol e da cachaça. É só um exemplo, dentre várias outras pessoas que chegam de Portugal ou do Acre, da Suíça ou do Amazonas, da Ucrânia ou de Feijó, como a atendente de uma padaria, na rua Santos Dummont. E acreanos não faltam! Encontramos com vários, até com alguns que a gente passa o ano inteiro sem ver em Rio Branco, e acaba encontrando por aqui. Outros que a gente já sabia que viriam e tantos outros que aqui residem, que nos pedem notícias de lá e nos abraçam com longos braços de saudade.


Passeando um pouco além de Fortaleza, estivemos em Flecheiras, Mundaú e Lagoinha. Fomos com o brother Paulo, com sua Fernanda e a filha deles, Mariana. Flecheiras cresceu bem, desde quando estivemos aqui em férias anteriores. A série Sem Limites (Globo) foi gravada em Flecheiras e Mundaú, no ano passado, e isto notabilizou mais a região. As praias são belíssimas, o encontro com o rio é um espetáculo especial e o lindo quadro do local se completa com muita areia e mangues. Em Lagoinha a paisagem é inconfundível, ímpar, incomparável. Os coqueirais, as palheiras e palmeiras, a praia vista do alto e um mar inesgotável compõem o cenário deslumbrante, que nossos olhos registram e o sentimento arquiva. Também em Lagoinha houve um crescimento notório, aumentaram as pousadas e até se vê o surgimento de um esquisito espigão de concreto lá adiante da praia principal, que parece manchar o conjunto natural. No Mundaú e em Flecheiras, é possível ver jegues passeando na praia e aves planando perto das velas dos barquinhos que procuram o peixe de cada dia. Os pescadores não saem de lá. Seus olhos se apossaram de toda aquela beleza e suas redes pescaram naturalmente os contornos e os encantos.

Mas nós fomos saindo, junto com a tarde, para reencontrar Fortaleza. A réstia de sol nos mostrou ainda muita gente nas praias e vários fiéis na cativante igreja de Santa Edwiges, ao ar livre, na beira do mar, ouvindo o barulho das ondas e os cânticos da fé, sob a regência de um vento arisco que leva alegrias e mágoas, que traz sonhos, enganos e desejos, quase todos sagrados para quem os vivencia. Domingo também é dia de feirinha. Tomamos banho, calçamos as sandálias, eu provei da paçoca que comprei na estrada, lembrei da cajuína e fomos todos passear na beira-mar, ao lado de gente de todos os lados do mundo, seguindo aparentemente pelo mesmo caminho, para um destino que se esconde pelas fileiras e pelos passos, como se fosse por entre os milharais ou até entre os prédios, feito espigas, que filtram o vento que passa e passeia do mar para a rua, para o sertão, para o mundo. Vendo assim, parece que somos todos do mesmo lugar. É essa mistura que compõe a beleza de Fortaleza. Afinal, podemos estar na única estrada, em ondas invariáveis e no mesmo barco.

Bem, falando em barco, neste janeiro fomos fazer um cruzeiro, saindo de Fortaleza. Os meninos conheceram Recife e Olinda, passearam em Natal e todos nós conhecemos as maravilhas guardadas em Fernando de Noronha. Foram seis noites, durante os sete dias que estivemos no navio Orient Queen. No navio conhecemos gente do mundo todo, da Ucrânia e das Filipinas, do Egito e da Grécia, gaúchos e cariocas, mineiros e londrinos. A minha filha Laura (19 anos) comentou que as pessoas deveriam falar o mesmo idioma, em todo lugar, e nós imaginamos que esse mesmo idioma não precisa ser apenas de palavras, mas pode ser de gestos, olhares e sorrisos, como os da Gabriela, a nossa caçula. Mais uma vez, percebemos que o mundo é um lugar único e que as separações, muitas vezes, revelam inconvenientes para a comunicação entre as pessoas e para um melhor convívio. Elas começam perguntando de onde você é, se fala tal e qual idioma, mas depois os olhares se acomodam, e se instala a vontade geral de interagir, de compartilhar, de fazer amizades e de trocar idéias. O Derek, meu filho (20 anos), logo se habituou a ouvir e a falar “where are you from?”. No salão de shows, quando eu disse que era do Acre, o apresentador perguntou se era mesmo verdade e olhares curiosos preencheram o ambiente. Mas depois, a curiosidade logo se transforma em simpatia, em simbiose, em convivência alegre.

A convivência alegre aconteceu, por exemplo, com os garçons brasileiros (Hamide e Robson), com a moça das bebidas chamada Olli, natural das Filipinas, com a loirinha romena, do bar reflections, também com o maitre búlgaro ou com o gerente egípcio, que olhou para a minha mãe e brincou que iria chorar, quando ela desembarcasse de volta em Fortaleza. Assim também foi com a bela morena Yana, a ucraniana que nos atendeu no free shop do navio, com sorriso envolto em olhos de negras flores que se abriam bem devagar. Ela levou de presente um exemplar do livro ‘Páginas da Amazônia – Proseando na Floresta’, diante de seu interesse em conhecer as coisas das matas amazônicas. Nos comunicamos um pouco em inglês, espanhol e até em português, que ela fala melhor do que nós falamos inglês. Desembarcamos e a saudade ficou, enquanto os poucos enjôos se foram. Aquelas pessoas do navio se foram, e a impressão imediata é a de que elas seguirão caminho diferente do nosso. Esperamos que todos cumpram o período de cruzeiro no Brasil com sucesso e que os estrangeiros tenham um bom regresso, nos dez dias em que navegarão até a Europa. Como me disse a Yana, todos querem estar em casa, de vez em quando. Como disse minha mãe Clair, reproduzindo meu pai Francisco, as pessoas são encantadas, anoitecem aqui e amanhecem ali. A outra impressão persiste, nos dizendo que estamos todos no mesmo barco e que o caminho tem apenas roteiros variados.

De nossa parte, descemos de volta em Fortaleza, onde nos sentimos em casa, embora já pensando em Rio Branco, onde estão nossas raízes. Mesmo sabendo que estamos no mesmo mundo e lugar, também sabemos que nosso querer está plantado no Acre, com ramificações seguras na pequena Rio Branco, mesmo que os varadouros e as sementes nos espalhem por várias estradas, até pelo infinito mar azul ou verde, pelas lembranças que ele carrega, pelos roteiros que seguimos, adiante dos passos que vamos deixando por Fortaleza, do suor que escorre nas ladeiras de Olinda, além da boa viagem por Recife, adiante do sonhos que a redinha de Natal nos embalou ou bem no meio do balanço do Orient Queen. No meio e além disso, navegam nossos sentimentos de amor pela vida, ainda que sejamos passageiros de rápida viagem, esse amor que também existe pelas pessoas e pelos lugares que emolduram essa mesma viagem.

Num outro ciclo da viagem, estamos embarcando hoje para nossa aldeia. O pessoal do navio está agora em Fernando de Noronha. Meu brother Paulo e a sua Fernanda estão em Paris. Lá de Xapuri, passeando por entre árvores e flores, regando outras praias, o rio Acre vem crescendo e suas águas passarão por Rio Branco com mais volume. Em fevereiro, o rio Acre fica cheio, se comparando com nossos olhos que miram alguns dias passados. Essas águas de rio seguirão para o mar e vão embalar, quem sabe, a dança do Orient Queen. Vão acariciar uns olhos que por lá passeiam. Vão regar umas flores que por lá se abrem. E daqui a pouco, o vento que nos receberá em casa seguirá para a Europa. De lá vai trazer de volta o Paulo, a Fernanda e tantos outros passageiros dessa grande viagem em que todos estamos embarcados. Enquanto isso, eu sigo sentindo um perfume fugidio de flor negra, que devagar se abre no meu pensamento.

José Augusto Fontes é poeta, cronista e juiz de direito no Acre.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

ACREBALDO


Recomendo a leitura das análises do jornalista Archibaldo Antunes sobre a política no Acre.

- Cansado da censura, resolvi criar um blog - avisa-me
Antunes, colunista da GazetaNet.

Leia o Acrebaldo.

CIPOAL DIGITAL

Conversei a respeito do programa Floresta Digital com o jornalista Aníbal Diniz, secretário de Comunicação do governo do Acre.

O governador Binho Marques (PT) já se reuniu com parte de sua equipe para avaliar o lançamento do programa.

Está ciente de que milhares de usuários em Rio Branco não conseguem captar o sinal do Floresta Digital.

Diante das falhas, segundo Aníbal Diniz, o governador afirmou que será a pressão dos usuários que forçará os ajustes no Floresta Digital.

Rio Branco quer ser a 1ª capital com cobertura total de internet grátis no país a partir do Floresta Digital.

Para a boa iniciativa o governo não criou sequer uma central de atendimento para quem quer se tornar usuário do serviço.

Em tempo

Aníbal Diniz revelou que a Procuradoria Geral do Estado prepara uma representação contra os procuradores da República no Acre.


O governo do Acre está insatisfeito com a conduta dos procuradores na investigação de casos como o da compra de um helicóptero.

A representação será formalizada junto ao Conselho Nacional do Ministério Público Federal.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

MARINA SILVA


PANDORA É AQUI?

Marina Silva

O Ibama concedeu a licença prévia para a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Trata-se de um projeto muito polêmico, localizado no rio Xingu, no Pará, próximo ao município de Altamira, numa região conhecida como Volta Grande do Xingu. O nome deve-se ao desenho do rio que, visto de cima, assemelha-se a uma "ferradura".

Por meio de barragens, as águas do rio serão desviadas para um canal que unirá as pontas mais próximas dessa "ferradura". Ao final desse canal, as águas passarão pelas turbinas antes de retornarem ao seu curso normal.

Como tudo na Amazônia, os números que envolvem a obra são gigantescos. A quantidade de terra e pedra que será retirada na escavação do canal - cerca de 210 milhões de m³ - é um pouco menor da que foi removida na construção do Canal do Panamá. E ainda nem se definiu qual a destinação desse material.

Pelo leito do rio Xingu passa uma vazão de 23.000 m³/s de água no período de cheia. Um volume correspondente a quatro vezes a vazão, também nos períodos de cheia, das Cataratas do Iguaçu.

Os impactos socioambientais também terão essa mesma ordem de grandeza. E ainda não foram concluídos. Só sobre a fauna, segundo dados coletados durante o Estudo de Impacto Ambiental, podemos ter uma idéia. Na área existem 440 espécies de aves (algumas ameaçadas de extinção, como a arara-azul), 259 espécies de mamíferos (40 de porte médio ou grande), 174 de répteis e 387 de peixes.

Apenas a eficiência energética da usina não será tão grande. Uma obra colossal que custará certamente mais de R$ 30 bilhões - se somados todos os gastos, como o custo e a extensão da linha de transmissão, por exemplo - terá uma capacidade instalada de gerar, em média, 4.428 MW, em razão do que poderá ser suportado pelo regime hídrico do rio, nesta configuração do projeto. E não os 11.223 MW que estão sendo equivocadamente anunciados.

A energia média efetiva entregue ao sistema de distribuição será de 39% da capacidade máxima de geração, enquanto a recomendação técnica indica que essa eficiência seja de pelo menos 55%.

Para que Belo Monte possa apresentar um grau de eficiência energética compatível com as recomendações técnicas, seria necessária a construção de outras três hidrelétricas na bacia do rio Xingu, que teriam a função de regularizar a vazão do rio. Por ora, a construção dessas usinas foi descartada pelo governo porque estão projetadas para o coração da bacia, onde 40% das terras pertencem aos indígenas.

No entanto, a insistência em manter o projeto nessa dimensão (apesar de haver alternativa de barragem com quase metade da capacidade instalada e perda de pouco mais de 15% na potência média gerada) provoca forte desconfiança, tanto dos analistas como das comunidades e dos movimentos sociais envolvidos, de que a desistência de construir as outras três hidrelétricas seja apenas temporária.

A população indígena - são mais de 28 etnias naquela região - ficará prensada entre as cabeceiras dos rios que formam a bacia, hoje em processo acelerado de exploração econômica e com alto nível de desmatamento acumulado. E a barragem, além de interromper o fluxo migratório de várias espécies, vai alterar as características de vazão do rio.

É incrível que um empreendimento com esse nível de interferência em ambientes sensíveis seja idealizado sem um planejamento adequado quanto ao uso e à ocupação do território.

A solução de problemas dessa dimensão não pode ser delegada exclusivamente a uma empresa com interesse específico na exploração do potencial hidrelétrico, com todas as limitações conhecidas do processo de licenciamento.

Com a obra, são esperadas mais de 100 mil pessoas na região. Não há como dar conta do adensamento populacional que será provocado no meio da floresta amazônica, sem um planejamento para essa ocupação e um melhor ordenamento do território. Isso só pode ser alcançado através da elaboração de um Plano de Desenvolvimento Sustentável na região de abrangência da obra.

Essa foi uma grande omissão nesse processo, mas não a única. Não temos como deixar de indagar se não há outros aproveitamentos hidrelétricos que seriam mais recomendados, sob o ponto de vista dos impactos ambientais ou da eficiência energética.

No entanto, não há projetos com estudo de viabilidade técnica e econômica prontos para serem submetidos ao licenciamento ambiental. Apesar de o diagnóstico ser conhecido desde 2003, apenas em meados do ano passado foram finalizadas as primeiras revisões de inventário de bacia hidrográfica, como a do Tapajós.

Com isso, projetos polêmicos e com grandes impactos têm que ser analisados em prazos muitas vezes incompatíveis com o grau de rigor que deveriam ter, numa clara demonstração de como, muitas vezes, os ativos ambientais são afetados pela falta de planejamento de outros setores de governo.

Porém, nada foi mais afetado do que nosso compromisso ético frente à responsabilidade com o futuro de povos e culturas. Não foram sequer feitos estudos sobre os impactos que os povos indígenas terão. Só para exemplificar, o que significará para eles ter a vazão reduzida significativamente num trecho de 100km em função do desvio das águas para o canal? O plano de condicionantes tampouco menciona a regularização de duas Terras Indígenas (Parakanã e Arara), já bastante ameaçadas.

Estas e outras comunidades indígenas manifestam inconformidade por não terem sido ouvidas adequadamente, segundo os preceitos da Resolução 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, mas nunca implementada para valer.

O Brasil possui um importante potencial de geração de energia hidrelétrica a ser desenvolvido. Mas as dificuldades em retomar o planejamento do setor na velocidade que possibilite escolhas e uma análise segura por parte do setor ambiental, somada à indisposição em discutir uma proposta de desenvolvimento sustentável para as obras de infraestrutura localizadas na Amazônia, à percepção de que o governo não faz o suficiente para melhorar a eficiência energética do sistema (não só na geração) e para desenvolver as energias alternativas, acaba por produzir conflitos agudos e processos equivocados, que poderiam ser evitados.

Apesar dos discursos em contrário, ainda estamos operando no padrão antigo, que considera o meio ambiente como entrave ao desenvolvimento. Temos ainda um longo dever de casa a ser feito para ingressarmos definitivamente no século 21. Quem pensa que a história relatada no filme Avatar só pode ocorrer em outro planeta, engana-se: Pandora também pode ser aqui.

Marina Silva é professora de ensino médio, ex-ministra do Meio Ambiente, senadora do Acre pelo PV e colunista da Terra Magazine.

"O ACRE NÃO SERÁ MAIS O MESMO"

Rio Branco será a 1ª capital com cobertura integral de internet grátis no país

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

PLÁCIDO DE CASTRO SEM ESPADA


No melhor lugar para se viver na Amazônia, até uma estátua em frente ao quartel da Polícia Militar do Acre é vítima de furto. Levaram a espada de José Plácido de Castro, coronel gaúcho que liderou a Revolução Acreana. Como o boato nunca morre, agora as más línguas dirão novamente que nosso herói não era mesmo espada.